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O funeral da notícia impressa
Carlos Chaparro
Fonte: www.reescrita.jor.br
A crise que colocou o Brasil no olho do furacão viaja em forma de notícia, pelos meios
do jornalismo on-line. Mas a notícia on-line nada tem de espontânea. Os acontecimentos -
os fatos e as falas em sua materialização - são açõesestratégicas para a difusão
jornalística em tempo real.
Jornalismo do "agora"
Em especial nas grandes crises, como esta que passa pelo Brasil, a notícia em tempo real
tem, quase sempre, o sentido de bomba teleguiada, para efeitos imediatos num cenário de
conflitos.
As informações correm mundo com a rapidez da instantaneidade, produzindo preocupações
e reações também imediatas, que brotam já em forma de novas notícias, para novas
alterações. As informações, mais do que as decisões, alteram os dados e os fatos da
crise. É uma loucura!
Quem trabalha nas redações dos jornais diários, com as preocupações e rotinas
organizadas para fluxos informativos de 24 horas, não faz idéia das pressões sofridas
pelos repórteres e editores do jornalismo on-line, principalmente os que trabalham com os
mercados de capitais e com a política, em tempos de crise. Na turbulência que balança o
Brasil, esses jornalistas vivem em estado de frenesim, quer estejam nos percursos dos
gabinetes oficiais ou instalados à frente de computadores ligados às redes mundiais.
Para eles não existe nem o ontem nem o amanhã; apenas o agora. Seu trabalho: captar e
distribuir, de imediato, com precisão, os números e os fatos da crise.
No Brasil, já são centenas os jornalistas que colhem, processam e difundem informações
em tempo real, para a Internet e pela Internet. A gente depende cada vez mais desse novo
jornalismo. E uma coisa é certa: em tempos de crise, e cada vez mais também no dia-a-dia
comum, é para o jornalismo on-line que os políticos falam e os misteriosos operadores do
mercado sopram.
Panela de pressões
No dia 19 de Janeiro, em meio às emoções da crise, falei com um desses profissionais.
Chama-se Alcides Ferreira, trabalha na Agência Estado, onde atua como editor de um jornal
eletrônico de informações econômicas. Ele está
permanentemente no ar, ligado, de um lado (em linha direta ou por meio de grandes
"atacadistas" internacionais de informações econômicas, que já existem), às
bolsas de valores, de mercadorias e de mercados futuros, as do Brasil, todas, e as
principais do mundo; do outro lado, supre de informações em tempo real uma rede de
10.000 telas, em terminais espalhados pelo Brasil inteiro. Aí estão os clientes, na
maioria homens de negócio ou executivos de grandes empresas. Numa outra vertente, a
Agência Estado abastece redações de jornais, rádios e televisões de todo o Brasil.
Em resumo, eis o depoimento de Alcides:
"Trabalhamos numa panela de muitas pressões. A mais presente é a pressão do tempo.
Aqui, o ritmo se mede em segundos. Nada pode atrasar, porque qualquer informação
atrasada pode atrapalhar decisões e negócios dos assinantes. Em tempos normais, as
coisas são mais fáceis; há um sistema que funciona e permite estabelecer rotinas. Mas
em tempo de crise, todas as rotinas são pulverizadas. Instala-se a pressão das
incertezas. Tudo se torna imprevisível e a gente deixa de compreender o que está
acontecendo. Ficamos que nem cego em meio de tiroteio. E não podemos errar. No nosso
campo, o erro não é tolerado. A precisão tem de ser absoluta. Essa é uma das pressões
da clientela. Em boa parte dos casos, os assinantes são pessoas apavoradas, envolvidas em
negócios de alto risco que exigem decisões rápidas ou estratégicas. Eles querem saber
de tudo na hora certa e com a garantia de que as informações são rigorosas, plenamente
confiáveis."
Sem tempo para pensar
O mercado de capitais é apenas um dos segmentos da atuação da Agência Estado. Ela
cobre tudo. E está também em Brasília, com um grupo de repórteres de olho e ouvido no
que acontece e é dito nos gabinetes da capital política
do país. Na dinâmica da crise, para acompanhar qualquer declaração oficial de Fernando
Henrique Cardoso, há pelo menos dois repórteres: um que anota com o máximo de rigor
possível o que o presidente diz, para o resumo a ser colocado nas redes logo depois que a
entrevista termina; o outro, conectado por celular ao sistema on-line, seleciona as frases
mais importantes à medida que vão sendo ditas, para que sejam colocadas imediatamente na
rede.
Nelson Breve, repórter, também trabalha para a Agência Estado, mas em Brasília, na
cobertura política. Sintetizo em três parágrafos o impressionante depoimento que dele
ouvi:
- Nosso trabalho de noticiar em tempo real é tenso, muito tenso. Tenho trabalhado tanto
nesta crise, ouvindo declarações por telefone, com o aparelho preso pelo ombro para ao
mesmo tempo fazer anotações, que os músculos endureceram. As dores me levaram ao
massagista.
- Mesmo assim, com dores, a entrega ao trabalho tem de ser total. Não se pode perder
nenhum detalhe. E isso, sob um outro tipo de tensão, a da concorrência agressiva entre
as agências. Numa crise como esta, de desdobramentos inesperados, exige-se atenção
total, para não sermos surpreendidos por notícias importantes que só os concorrentes
deram.
- As declarações são tantas, e os fatos, tantos, que não há tempo para refletirmos
sobre o que acontece. Tudo o que podemos fazer é reproduzir o que ouvimos. E, aí,
noventa por cento do que divulgamos é discurso do governo, as suas chantagens
estratégicas. Engolimos todas as versões oficiais, sem tempo para tentar compreender o
que está acontecendo. Por isso, quem se informa pelos jornais não se dá conta da
gravidade da crise.
O truque e a contradição
Uma das armadilhas em que o jornalismo diário impresso caiu é essa de aceitar como coisa
boa a submissão das redações à lógica do negócio. E aí, para alcançar a
combinação milagrosa de aumentar tiragens e reduzir
custos, os truques emocionais das aparências enganam os leitores. Truques, sim, e neles
se inclui o tratamento jornalístico dado às campanhas de marketing; servem para esconder
a estabelecida incapacidade jornalística de investigar, às vezes até a de pensar.
Cria-se, então, a estranha contradição: a empresa, a sociedade e a atualidade exigem do
jornalista, cada vez mais, a capacidade intelectual de compreender, para explicar, o
complicado mundo circundante; entretanto, ao jornalista se impõem circunstâncias e
condições de trabalho que inibem nele o exercício da capacidade pensante. A empresa
jornalística contribui ostensivamente para isso, com os modelos gerenciais da lógica do
negócio; e a própria atualidade agrava o problema, com a avassaladora e
institucionalizada competência de produzir acontecimentos programados de grande
relevância jornalística, com a característica serem conteúdos previamente elaborados.
Se as coisas não mudarem, as fontes com maior capacidade de produzir os acontecimentos
continuarão a utilizar o jornalismo on-line para dar dimensão aos efeitos imediatos das
suas ações jornalístico-discursivas; e aprenderão rapidamente a colocar, nos jornais
impressos do dia seguinte, as explicações convenientes. Ou a falta delas.
Chegará o tempo em que o jornalismo on-line, por capacidade própria de argumentar ou
porque os discursos institucionais da controvérsia democrática o farão, há de dar,
além da notícia, a interpretação que a explica. Enquanto esse tempo não chega, e se o
jornalismo da imprensa diária não mudar, agravar-se-á o vazio paralisante, dramático,
na capacidade social de compreender os acontecimentos da atualidade.
Penso, esperançoso, que até os especialistas em marketing descobrirão em breve que só
a credibilidade garante o sucesso do jornal diário de referência. E espero que
descubram, também, que a credibilidade depende cada vez menos da capacidade de informar,
porque o ciclo de 24 horas envelhece e destrói a notícia.
O jornalismo de periodicidade diária terá que assumir uma nova vocação interpretativa
e argumentativa, para oferecer à sociedade, no dia seguinte, a análise e a discussão
dos acontecimentos da véspera, já noticiados pela difusão eletrônica do
"agora". Ou os jornais fazem essa escolha ou perderão função.
Carlos Chaparro é professor de jornalismo da ECA/USP
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