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Meios de Comunicação:
dos Homens para os Homens
Maria Aparecida Baccega
Fonte: Revista Comunicação e
Educação
A reverência tem caracterizado a relação da sociedade com os meios de comunicação. E
reverência significa tanto submeter-se sem questionamento, a partir de determinados
dogmas, quanto temer os meios -- e essa é outra forma de dar-lhes largo espaço em nossas
vidas -- a ponto de gastarmos muito tempo de nossas preocupações maldizendo-os,
negando-os, tranformando-os na bruxaria maior de nossos tempos: da falta de empregos à
banalização da nudez, criando, portanto, uma sociedade dita sem valores; das eleições
manipuladas à prática da violência; por todas as mazelas, enfim, eles têm sido
responsabilizados.
Concretamente plantados em nossas vidas, os meios de comunicação atraem para si a
culpabilidade de todos os males, só que de forma pontual: os males são arrolados um a
um, como se não formassem um conjunto, uma totalidade. Algum tempo, fala-se só da nudez;
outro tempo, só da manipulação das eleições. Com isso, deixam-se de lado discussões
absolutamente indispensáveis para entendê-los e, ao final, certamente modificá-los:
qual o papel do Estado na chamada modernidade? Quais os direitos dos cidadãos? (Ou antes,
o que é ser cidadão? E quem consegue ser cidadão no Brasil?) Como os meios de
comunicação aparecem neste projeto de Estado? Qual consideramos deve ser seu papel na
formação de homens que saibam que têm direitos e que consigam reivindicá-los. Na
verdade, os meios de comunicação precisam ser dessacralizados. É preciso que tomemos
consciência de que eles não passam de instrumentos a serviço de políticas que redundam
em malefícios e/ou benefícios à sociedade.
Os meios de comunicação não são seres sobrenaturais. Como diz Tornero, referindo-se à
televisão (mas podemos ampliar para os meios em geral), eles têm que ser assumidos por
nós como eles na verdade são: construídos e sustentados por seres humanos. A
televisão, diz Tornero, "se introduz -- de modo mais ou menos imperativo -- na
sociedade. É um objeto que pode ser manipulado, orientado e transformado pelo coletivo de
telespectadores que o usa". Para o autor, é preciso deixar de olhar os meios como se
eles fossem deuses, como se ao nos relacionarmos com eles precisássemos olhar para o
alto. É preciso "inverter o sentido desse olhar que dirigimos para cima e torná-lo
um olhar dono de si mesmo, livre e soberano" diante das propostas dos meios.
E o olhar livre e soberano é característico do cidadão, é resultado de concepções de
Estado que respeitem ou não os indivíduos, que busquem ou não que todos sejam
cidadãos. Logo, é preciso, rapidamente, acrescentar à pauta das discussões sobre os
meios (nudez, violência, alienação etc.) a discussão sobre qual é a sociedade que
queremos, como o Estado deverá atuar para garantir os direitos básicos para que todos
sejam cidadãos. E aí incluído o papel dos meios.
Por outro lado, também é fácil constatar que os meios de comunicação, com os avanços
permitidos pela tecnologia, são grandes responsáveis pela sustentação do projeto de
globalização.
Jorge da Cunha Lima lembra que sua geração passou por três telas: a primeira, a tela do
cinema, pela qual eram aficcionados; a segunda, a tela da televisão e, finalmente, a
terceira, a tela do computador. Segundo ele, nenhuma delas "matou" a anterior.
Pelo contrário, entrosaram-se e sobrevivem graças a uma integração cada vez maior. O
autor, porém, chama a atenção: a globalização, que alimenta todos os meios, apresenta
alguns fatos "como se os fatos fossem apenas esses, os que viraram notícia e
passaram na televisão, excluindo todas as demais realidades do mundo, enfim, essa
pasteurização do acontecer mundial pode acabar com a identidade de cada homem. Nós
vamos chorar mais por uma baleia ferida do que por mil crianças assassinadas, porque a
pauta pode ser chorar pelas baleias feridas".
E aí entra a importância do projeto de Estado, como já apontamos: se no Estado em que
vivemos as pessoas não têm garantidos seus direitos, então é necessário que
"choremos" as baleias feridas -- é um modo de manter preenchidas as emoções
da população -- e que desconheçamos não só o assassinato já consumado de "mil
crianças" como também a perspectiva das milhares de mortes que ocorrerão pela
desídia do Estado. Se fôssemos chorar as crianças mortas, acabaríamos por perceber a
iniqüidade da realidade em que vivemos.
A pressa para integrar-se ao "modismo" da globalização tem levado a que não
se discutam as características daquilo que queremos, daquilo que efetivamente atuará
mais adequadamente em termos de realidade brasileira. Como lembra Eugênio Bucci,
contrariamente à decisão democrática, o que estamos presenciando é "o ultimato, o
argumento da pressa que atropela a discussão, como o vendedor que faz chantagem: ou leva
agora ou o preço sobe amanhã. A figura do vendedor não é lembrada aqui por acaso. O
tipo de pressão que ele usa, a ameaça da elevação descontrolada de preços, é bem
representativa do clima de correria em torno da globalização. Não há tempo para se
perder com lero-lero. É pegar ou largar. Como desdobramento, acaba-se negando a própria
origem dos interesses diversos que se põem em disputa organizada e fazem girar a máquina
da democracia. Pois a globalização, ao acontecer pelo adesismo incondicional, dá como
inexistentes, ou irrelevantes, as divergências. (....) Na era da globalização, o termo
conflito passa a ter um certo gosto de antigamente, passa a soar como um prurido moral um
tanto quanto fora do lugar".
Maria Aparecida Baccega
Doutora em Letras e Ciências da Comunicação, Professora Associada da Escola de
Comunicações e Artes da USP, Especialista em Linguagem Verbal nos Meios de
Comunicação, Coordenadora do Curso "Gestão de Processos Comunicacionais" .
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